No Setembro Amarelo, unidade chama atenção para mudanças na autoestima, ansiedade, isolamento e outros sinais de sofrimento durante a recuperação de pacientes
Por Roberta Paraense
22/09/2026

Um acidente pode transformar a vida de uma pessoa em poucos segundos. Além das lesões físicas, o paciente pode enfrentar mudanças na aparência, perda de mobilidade, dependência para realizar atividades cotidianas e incertezas sobre o futuro. No Setembro Amarelo, o Hospital Público Estadual Galileu (HPEG) alerta a população para as consequências emocionais que podem surgir após um trauma e para a importância de reconhecer e acolher o sofrimento desde os primeiros sinais.
Gerenciado pelo Instituto de Saúde Social e Ambiental da Amazônia (ISSAA), o Hospital Galileu é referência no atendimento de trauma e dispõe de 104 leitos de internação e oferece consultas especializadas em Anestesiologia, Doenças Benignas da Traqueia, Doenças Ortopédicas – Reconstrução e Alongamento Ósseo, Ortopedia Pós-Alta e Urologia Cirúrgica Benigna.
Nesse contexto, o cuidado não termina na estabilização clínica ou na recuperação dos movimentos. A psicóloga Evelyn Cunha explica que a experiência pode afetar diretamente a forma como o paciente passa a enxergar a si mesmo.
“Um acidente pode representar uma ruptura muito significativa na vida do paciente. De forma repentina, ele pode se deparar com limitações físicas, mudanças na aparência, perda temporária ou permanente de autonomia e necessidade de depender de outras pessoas para realizar atividades que antes fazia sozinho”, afirma.
Segundo a psicóloga, essas transformações podem repercutir na autoestima e provocar vergonha, insegurança, medo de não voltar a ser como antes ou preocupação com a maneira como a pessoa será vista. Por isso, a assistência durante a internação precisa considerar tanto a recuperação física quanto os aspectos emocionais envolvidos na adaptação à nova realidade.
Ansiedade, tristeza, medo, irritabilidade, alterações do sono, preocupação excessiva com o futuro e sensação de impotência estão entre as manifestações que podem aparecer depois de um trauma grave. O paciente também pode vivenciar uma espécie de luto pela condição de vida anterior, sobretudo quando o acidente compromete sua autonomia, mobilidade ou imagem corporal.
“É importante ressaltar que essas reações não significam necessariamente que o paciente desenvolveu um transtorno mental. Elas precisam ser compreendidas dentro da história de cada pessoa e acompanhadas pela equipe para identificarmos quando existe sofrimento persistente ou intensificado que necessita de intervenção especializada”, esclarece Evelyn.
A perda temporária ou permanente da mobilidade também pode aumentar a vulnerabilidade emocional quando interfere no trabalho, na vida social, nos relacionamentos e nos projetos pessoais. Entretanto, a psicóloga ressalta que não existe uma relação automática entre limitação física e depressão. Cada pessoa possui uma história, recursos internos e uma rede de apoio próprios.
O isolamento pode surgir pela insegurança diante das mudanças corporais, pela vergonha ou pelo medo de ser reconhecido apenas por sua condição de saúde. Nesses casos, o acompanhamento psicológico contribui para que o paciente compreenda as transformações e desenvolva novas possibilidades de enfrentamento.
Mudanças importantes no comportamento habitual precisam ser observadas por familiares, acompanhantes e profissionais. Isolamento, choro frequente, desesperança, ansiedade intensa, irritabilidade, recusa persistente dos cuidados, alterações significativas no sono ou no apetite e dificuldade de se comunicar com a equipe podem indicar sofrimento emocional.
A atenção deve ser ainda maior quando o paciente fala sobre falta de sentido para continuar, desejo de morrer, sensação de ser um peso para a família ou de que a vida não vale mais a pena.
“No ambiente hospitalar, qualquer manifestação dessa natureza deve ser acolhida e avaliada pela equipe. Não devemos minimizar uma fala de morte ou automutilação como sendo apenas uma reação ao momento”, alerta Evelyn.
A identificação do risco ocorre por meio da observação clínica, do diálogo entre os profissionais e da avaliação psicológica e multiprofissional. Quando há suspeita de risco de suicídio ou automutilação, a equipe considera fatores como ideação suicida, histórico de tentativas ou comportamentos autolesivos, condições emocionais atuais e rede de apoio.
A partir dessa avaliação, são estabelecidas estratégias de proteção e acompanhamento, com a participação dos profissionais necessários e, quando pertinente, da família ou rede de apoio, respeitando os princípios éticos e a confidencialidade do paciente.
“No hospital, a prevenção não acontece apenas no momento em que existe uma tentativa. Ela começa pela possibilidade de escutar o sofrimento antes que ele se transforme em uma situação de maior risco”, enfatiza a psicóloga.
A Psicologia Hospitalar oferece um espaço para que o paciente expresse medos, angústias, perdas e expectativas relacionadas à hospitalização e à recuperação. Nos casos de trauma, o atendimento ajuda na elaboração da experiência vivida, na adaptação às mudanças físicas e funcionais e no fortalecimento dos recursos emocionais.
“A Psicologia Hospitalar atua oferecendo um espaço de escuta e acolhimento para que o paciente possa expressar seus medos, angústias, perdas e expectativas diante do processo de adoecimento e recuperação”, explica Evelyn.
O trabalho também envolve os familiares e ocorre de forma articulada com a equipe multiprofissional. A proposta não é impor otimismo ao paciente, mas ajudá-lo a compreender e enfrentar uma experiência que, muitas vezes, aconteceu de maneira repentina.
“O objetivo não é simplesmente fazer com que o paciente ‘pense positivo’, mas ajudá-lo a encontrar formas possíveis de simbolizar e enfrentar uma experiência que muitas vezes aconteceu de maneira abrupta e inesperada”, acrescenta.
A presença da família pode representar segurança, pertencimento e suporte emocional durante períodos de medo, dor, dependência e incerteza. Mas o acidente também pode fragilizar os familiares, que precisam compreender como apoiar sem retirar a autonomia do paciente.
“A família pode representar uma importante fonte de segurança, pertencimento e suporte emocional. A presença de pessoas significativas pode ajudar o paciente a enfrentar períodos de medo, dor, insegurança e dependência”, destaca Evelyn.
A psicologia pode orientar os familiares sobre formas de comunicação e acolhimento, evitando atitudes excessivamente protetoras que reforcem a sensação de incapacidade. Respeitar o tempo, as escolhas e os limites do paciente faz parte do processo de recuperação.
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